É verdade que cansado estou de dar voltas no mesmo lugar tentando estabelecer nova fonte de renda que sustente o padrão de vida da família, ou mais precisamente, padrão de ingestão alimentícia, mas o fato é que esse trabalho de traduzir textos secos e de utilização específica, hoje técnicos, amanhã quem sabe de cunho legal causa em mim estranho senso de realização, como se a busca frenética pelo significado de certo nome de peça ou abreviatura pelos confins do hiperespaço realmente tivesse algum sentido além deste, o de aprender hoje algo novo, totalmente inútil, que certamente já terei esquecido amanhã de manhã ao acordar, essa busca fremente de outra moeda que me compre mais uma semana de vida... Pobre criatura tentando montar máquina de seis toneladas em plataforma de petróleo segundo instruções que lhe traduzi! Pobre juiz, tentando servir à velha deusa cega e lenta, tradução tão malparida a lhe desregular o fio da espada, o fiel da balança!
E no entanto é quase com vergonha que confesso essa sensação do dever cumprido que me assola, como a felicidade dopaminada do corredor estacionário viciado na esteira. Como se as coisas realmente fizessem sentido, a sonda de cento e cinquenta milhões de dólares a perfurar e sangrar as partes íntimas do planeta em busca da seiva negra e viscosa que alimenta nossa civilização estivesse realmente a fazer algo mais importante que a queda de um fio de cabelo branco da Cabeça onipotente de um Deus inexistente (ou não), porque realmente não faz a minima diferença, a existencia/não existencia desse ser é o mesmíssimo e simultaníssimo milagre, e amanhã estaremos todos aí fora outra vez a brigar pelas migalhas, e os mais agressivos subirão nos ombros dos outros, e em seguida pisarão em pilhas dos que forem caindo pelos caminhos, os mais velhos, fracos, cansados, submissos ou mesmo sensíveis, e comprarão novos armamentos, submarinos e caças da Rússia, ou quem sabe França, Suécia ou algum outro novo candidato a ator nessa incrível indústria da morte, porque desta o homem nunca cansa. Estes esperarão a salivar a primeira oportunidade de usar os novos brinquedos, arrotando comentários a uma vez sarcásticos e pouco inspirados sobre o que os cerca. Pensando que nos enganam. Ou nós talvez pensando que eles não nos enganam, que não nos enganamos?
Mas então, deixem-me acreditar, deve ser verdade o que pregava (e vivia) John Muir, que o verdadeiro Deus existe na contemplação e preservação da natureza, daqueles sítios mágicos que permitem ao homem enxergar sua verdadeira dimensão. O homem é um ser muito peculiar mesmo. Quem me leu até aqui deve forçosamente ter chegado a esta conclusão. E no entanto, me sinto realmente como se tivesse subido uma montanha. Deve ser essa música nos meus ouvidos…
Sunday, October 11, 2009
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