
Novamente, as montanhas. Essas pedras do Rio serenas e verdes, indiferentes à própria beleza, espraiadas sem-vergonha ao som do mar e à luz do céu profundo. Só mesmo um Deus safado e pornográfico poderia criar uma obra destas, esses rochedos, essa areia e vegetação luxuriantes em obcena e deslumbrante sucessão, essas curvas voluptuosas, tesão da natureza! Rio, hoje te amo como nunca soube que te amava quando em teu seio vivia.
Então fiquemos assim, você vivendo aí, infestado de parasitas; e eu te idealizando de longe, que ninguém é de ferro. Não por culpa tua, meu xuxu, és uma linda cidade, e te sinto sempre de braços (e pernas) abertos, umidade e calor. No entanto o carioca, que antes de tudo é humano no pior sentido da palavra (espécie-infestação, espécie-sofreguidão, espécie-armação e destruição), a espécie que destruiu Roma (aquela mesma que não se construiu em um dia) e vem tentando fazer o mesmo com o resto do planeta. Até pelas trilhas do Everest vem deixando seus resíduos imundos… O carioca, vítima de si mesmo, de Brasília, dos paulistas, da seca do Nordeste e até dessa tua beleza sem-vergonha, vem te estrangulando, aos poucos, e há muito, lenta e irreversivelmente, meu amor. Já não se pode subir tuas encostas sem um frio na espinha, ou mesmo caminhar à luz do dia sem uma sensação de roleta-russa, de será que é hoje…
Minha cidade amada pra sempre te amo, quero você feliz sob esse céu azul, quero muito muito que você sobreviva ao derretimento da calota polar, à máfia PaulisTa do PlanalTo, à tua própria antropofagia.
Rio te cuida, não pegue resfriado ou pise em prego enferrujado, a vida é bela, e disso não há lembrança maior do que ver você assim na tela do meu computador, do jeito que veio ao mundo.
Obrigado, obrigado meu Deus na Sua Divina Safadeza! Agradeço ao Acaso, ao passado, à história e a meus sortudos avós que tiveram o privilégio de sair do frio a conhecer-te para que eu pudesse um dia vir a nascer desse teu ventre pulsante, morno, úmido, lascivo e indolente. Você salvou a minha vida!
Até um dia desses.
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